Por Viviane Prestes. Esta matéria foi publicada na Revista InfoGPS 14, de dezembro de 2010.
Desde que o mundo é mundo o homem precisou de uma forma para interagir na sociedade. As primeiras cidades surgiram com o objetivo de inserir o homem nesse círculo, saber quem ele é e as suas funções. E isso perdurou por cerca de cinco mil anos, até que surgissem os computadores. A partir daí o relacionamento homem x espaço mudou completamente. Começaram a surgir redes de interação na internet, que se transformaram em pequenos círculos e reuniram pessoas com interesses em comum. E não demorou muito para que esse se tornasse mais um meio das pessoas se encontrarem em algum lugar. Agora já não basta saber quem você é; é preciso saber onde você está.
Localização. Esta é uma palavra que pode definir a vertente para a qual as redes sociais estão se direcionando. Não só para se comunicar, essas páginas espalhadas pelo espaço cibernético reúnem, definem perfis e localizam as pessoas. Porém as redes sociais geolocalizadas ainda estão em fase beta no Brasil, apesar de já estarem bem consolidadas em outros países.
O Foursquare, por exemplo, tem cerca de 170 mil usuários no Brasil, segundo o Ibope NetRatings, e é considerada uma rede em ascensão. Porém esse número ainda é pequeno, comparado ao crescimento do Twitter, no país. O microblog tinha, em 2008, quando estreou no Brasil, aproximadamente 344 mil usuários, de acordo com dados de uma pesquisa feita pela Agência Bullet, e agora já está na casa dos 18 milhões, colocando o país em segundo lugar no ranking mundial em relação ao Twitter.
As redes sociais foram se especializando, e agora já são dezenas de sites voltados a localização dos usuários. Milhões de pessoas já estão geoconectadas.
Números brasileiros a parte, muitas pessoas veem uma enorme vantagem nessa nova ferramenta de se comunicar e achar pessoas. Fernanda Mello, estudante de geografia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (Puc-Rj), e que usa as redes sociais geolocalizadas desde o início deste ano, quando começaram a proliferar esses tipos de serviços no país, conta que “a facilidade de compartilhar aos seus amigos e seguidores a sua localização para um possível encontro e também uma geração de conteúdos e comentários sobre um estabelecimento são as vantagens das redes geolocalizadas. Por exemplo, na área de restaurantes com opinião de pratos e serviços oferecidos; na área de entretenimento, saber o que há de melhor naquela área quando eu não conheço o local; e também no setor de educação, ao utilizar para conhecer não apenas outros alunos como também novos cursos por perto”.
Rodrigo José Firmino, professor em Gestão Urbana da Puc-Pr, diz que esses fenômenos tecnológicos ampliam a experiência no próprio espaço.“Nós estamos assistindo um momento em que o espaço mesmo tradicional, o meio ambiente construído, está sendo recombinado com essas novas tecnologias, no sentido de constituir o próprio espaço e a vigilância está presente sem percebermos”, completa Firmino.
Mas o professor afirma que essas tecnologias não substituem as formas tradicionais das pessoas se comunicarem e se comportarem, apenas são ferramentas complementares para os usuários interagirem.
Marketing Móvel
Além disso, quem tem tirado proveito do uso das redes sociais geolocalizadas são as empresas, que estão investindo em marketing online e móvel através dessas ferramentas. Estevão Rizzo, sócio da 8020 Marketeria Digital, de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, conta como usou o Foursquare em uma ação de marketing de um cliente. Através da rede a empresa reuniu mais de 50 pessoas em um único local, no caso um bar na cidade, para dar os famosos check-ins, o que ficou conhecido como check-in coletivo. “Através de uma ação divertida, conseguimos mais clientes para o bar”, afirma Rizzo, e complementa que “as pessoas que se conhecem virtualmente gostam de se encontrar pessoalmente”.
De acordo com Firmino, a partir desse fenômeno, das empresas começarem a usar as redes sociais para o marketing, é possível que se trace o perfil do possível consumidor do produto, que deu origem a uma nova profissão: o Analista de Redes Sociais. “São pessoas que trabalham para grandes empresas e querem entender como funciona o comportamento de possíveis clientes e mercados”, afirma Firmino.
Geolocalização nas alturas
Empresas grandes também investem nessas plataformas de geolocalização para ampliar os serviços. A agência espacial norte-americana, Nasa, já utiliza o Foursquare e o Gowalla. O astronauta Doug Wheelock foi a primeira pessoa a fazer o check-in diretamente do espaço através do Foursquare, no dia 22 de outubro de 2010. Wheelock estava na Estação Especial Internacional ( Internacional Space Station), e a parceria entre a agência e a rede possibilitou que os usuários do Foursquare pudessem se conectar com a Nasa para explorar o universo e descobrir a Terra. “ As ferramentas de mídias sociais estão fornecendo para a Nasa um jeito fácil de conectar e comunicar informações rapidamente, o que é ótimo durante operações em tempo real como um lançamento de foguete ou até mesmo em uma campanha de monitoramento de um furacão”, exemplifica Stephanie Schierholz, gerente de mídias sociais da Nasa.
Já a ação da agência no Gowalla é colocar as pessoas mais perto do universo, virtualmente. Qualquer pessoas que use a rede pode explorar o espaço e achar um dos quatro itens da agência ( uma pedra estelar, um fragmento da Nasa, um traje e até mesmo uma nave espacial). A ideia é conectar pessoas que estejam no mesmo lugar. O interessante é que, por exemplo, a pedra estelar virtual pode ser encontrada quando o objeto estiver realmente em exibição, e mundo afora não é difícil achar lugares que tenham essas amostras. Museus em todo o mundo têm as pedras que foram trazidas das missões espaciais da agência.
Tendências 2011
Estevão Rizzo destaca que as redes sociais que misturam jogos com localização serão as grandes tendências para 2011. Como por exemplo o SCVNGR, que é um jogo para smartphones e que permite aos usuários criar desafios nos lugares em que estão. Outra rede social para celular é o Waze, que possibilita navegação por GPS para motoristas. Ambas as redes estão entrando no Brasil. Mas por aqui também aparecem iniciativas no segmento. Para 2011 está programado o lançamento da rede Smiples. Fausto Freire, gerente do projeto, que é voltado para motoristas, diz que essa nova comunidade na web irá permitir que os usuários discutam sobre assuntos como trânsito, veículos, mercado, cidades, entre outros.

Fundado por Dennis Crowley e Naveen Salvadurai, em 2009
Local: Texas
Gênero: relacionamento

Fundado pela empresa norte-americana de games Alamofire, em 2007
Local: Texas
Gênero: relacionamento

O Loopt foi fundado por Sam Altman e Nick Sivo, em 2006
Local: Califórnia
Gênero: eventos

WhosHere foi criado pela agência myRet, em 2007
Local: Califórnia
Gênero: relacionamento

O Brightkite foi fundado pelas empresas norte-americanas Azure Capital, Draper Fisher Jurvetson, NEA, e Nexit Ventures, em 2005
Local: Califórnia
Gênero: relacionamento

O Twitter Places foi fundado pelo microblog Twitter, em 2010
Local: Califórnia
Gênero: relacionamento

O Facebook Places foi criado pela equipe do Facebook, em 2010
Local: Massachusetts
Gênero: relacionamento
Empresas que tiveram sucesso com o Foursquare
Se a pessoa fizer um check-in no Miracle Mile Shop, espaço comercial localizado no hotel Planet Hollywood, Las Vegas, pode receber uma recompensa “Vegas-style” e pode também ter seu nome estampado em forma de luzes, literalmente.
A rede de televisão norte-americana Bravo entrou no Foursquare para ajudar a dirigir seus telespectadores para mais de 500 localidades associadas aos programas da rede. O incentivo era: badges agora; sorteios e premiações no futuro.
A Starbucks, rede de cafeterias, que está espalhada pelo mundo todo, usou o Foursquare para tornar os usuários da rede baristas quando fizessem o check-in em cinco Starbucks diferentes.
Dados: Econsultancy. Título original: 10 Foursquare marketing campaigns
Os canais MTV e a VH1 permitiram aos usuários seguir os passos das suas estrelas de televisão favoritas. Através da parceria do Foursquare com a MTV, celebridades de programas como Jersey Shore, The Hills, The City e Real World: New Orleans irão receber a opção “modo celebridade”nas contas da rede social, que estarão acessíveis para os fãs.
Uma companhia que já está recompensando seus consumidores que fazem check-ins é a rede de iogurtes Tast D-Lite. A empresa permite que os membros de seu cartão de fidelidade “TreatCards” ganhem pontos extras, conectando os cartões na contas do Foursquare e deixando o mundo saber quando eles fizeram uma compra.
Privacidade
Divulgar a localização do usuário é uma tendência no meio virtual e mobile. Seja para achar pessoas, ou por diversão, para empresas, ou simplesmente para compartilhar experiências. Apesar de ser uma decisão do usuário divulgar sua posição geográfica é preciso estar atento à publicação desse tipo de conteúdo na internet, ou até mesmo em aplicativos para smartphones. Para Rodrigo José Firmino, cabe ao usuário decidir pela liberação do conteúdo ou não, a partir do momento que se habilita a participar da comunidade ou de uma rede geolocalizada. “O usuário deve saber tudo que pode acontecer atrás do software, se ele integra os dados a outras redes sociais ou disponibiliza as informações para estabelecimentos comerciais, por exemplo”, orienta Firmino.
Cuidados ao se divulgar a localização em uma rede social:
• Divulgue a sua localização apenas para amigos;
• Leia o Termo de Compromisso antes de entrar em uma rede social geolocalizada;
• Confira também a Política de Privacidade da empresa;
• Certifique-se que a rede é de confiança;
• Não adicione pessoas que você não conhece;
• Certifique-se de que os dados serão utilizados para outros fins, como comerciais, por exemplo.