*Por Agatha Branco. Esta matéria foi publicada na Revista InfoGPS 14, em dezembro de 2010.
Visualizar um endereço ou um ponto de interesse ganhou um novo formato no Brasil. Desde setembro de 2010 o serviço Street View está disponível na rede e já faz sucesso entre os internautas.
Foram mais de 12 meses de trabalho, um total de 150 mil quilômetros de vias percorridas e milhões de imagens tratadas e processadas, totalizando até o momento mais de 51 municípios, com cenas das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e de suas áreas metropolitanas, como São Bernardo do Campo (SP), Niterói (RJ) e Curvelo (MG).
Um projeto grandioso que não teve particularidades para o Brasil. Segundo Marcelo Quintella, gerente de produtos de geolocalização do Google para América Latina, os trabalhos seguem o mesmo roteiro dos outros países e é desenhado de modo a poder ser executado em qualquer parte do mundo. “Não creio que tenhamos tido particularidades significativas”, afirma.
Em 2009, a Google do Brasil fez uma parceria com a Fiat para começar a mapear as ruas de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. A montadora foi uma das patrocinadoras do serviço e disponibilizou modelos Fiat Stilo para essa tarefa.
Os carros utilizados pela Google foram equipados com nove câmeras direcionais para realizar fotografias em 360 graus na horizontal e 290 graus na vertical. A cada dez metros percorridos, as câmeras capturam as imagens, que posteriormente são georreferenciadas através do módulo GPS integrado, e laser para medir a distância até os edifícios. A seguir as imagens são agrupadas formando um mosaico que dá um impressão de ser uma imagem única, que conseguimos visualizar no Street View, um serviço que está inovando a forma de ver um mapa.
As três primeiras regiões metropolitanas levaram cerca de seis meses “de carros na rua”. No total foi um ano de duração, que contou com testes iniciais, em que os carros ficavam parados por algum tempo. O plano de trabalho é muito flexível, explica Quintella. “Simplesmente selecionamos as cidades e os motoristas são instruídos a passar “por todas as vias”, sendo que eles podem alterar seus trajetos quando necessário (por questões de trânsito, por exemplo)”, afirma.
Em breve, o Street View também circulará por Brasília, Curitiba, Porto Alegre, Recife e Salvador. Serão usados, ainda, dois triciclos com câmeras (que o Google chama de trikes) para registrar lugares turísticos de difícil acesso, como estádios. Uma nova parceria vem sendo estudada e internautas indicaram, no site do projeto (www.exploreostreetview.com.br), os pontos que gostariam de ver.
Quintella explica que, para a primeira etapa do projeto de trazer o Google Street View ao Brasil, o Google contou com uma parceria com a Fiat. Agora, a iniciativa será expandida: “além de seguir fotografando em outras cidades e regiões, o Google terá um recurso adicional para mapear lugares em que carros não são permitidos. Para isso, o trouxemos ao país o Google Trike, um triciclo adaptado e equipado com o mesmo tipo de câmeras disponíveis nos carros para a captação de imagem. Por ser um veículo leve, sem motor, ele pode trafegar por parques, praças, orla do mar e estádios de futebol, tornando o serviço ainda mais completo”, diz o gerente.
À medida que é feita a captação das imagens, os dados coletados são guardados nos escritórios do Google. Depois de armazenado um volume de imagens suficiente, os HDs são enviados para a sede da empresa, em Mountain View.
Os dados ficam em servidores do Google, e ainda não temos planos de quando serão atualizados, uma vez que o foco inicial é coletar as primeiras imagens de todas as vias do país”, afirma Quintella.
Na sede da empresa, a equipe de processamento é responsável por borrar placas e rostos, para garantir a privacidade. O software que processa as imagens para identificar o modelo de placa adotado em veículos de cada país é configurado pelos engenheiros da companhia, que utilizam de duas técnicas que são ligadas à inteligência artificial: visão computacional e aprendizado de máquina. Depois, a base de dados é submetida aos algoritmos matemáticos e é conferido se as ações foram executadas corretamente.
Para todo mundo ver
O serviço foi para o ar no final de setembro, com alguns meses de atraso em relação a data inicial prevista. Desde então os internautas começaram a buscar por imagens curiosas no Brasil.
No dia da estreia ocorreram alguns imprevistos. Imagens de cadáveres foram localizadas por internautas no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. Na época, o assunto dominou as redes sociais e as pessoas começaram a garimpar por imagens bizarras e compartilhar. Como de um homen andando armado andando nas proximidades das ruas Cláudio Santoro e Giulio Eremita, no bairro do Jaraguá, na zona norte da capital paulista.
Veja outras imagens engraçadas no site: www.streetviewfunny.com
Apaixonados por novidades, os brasileiros têm usado e abusado do serviço. Afinal, depois de passar alguns anos podendo conhecer apenas grandes cidades de outros países, agora contam com a oportunidade de conhecer o seu próprio país, e de uma maneira única, que só o Google foi capaz de proporcionar.
O lançamento oficial do Google Street View no Brasil foi no MIS – Museu da Imagem e do Som de São Paulo. Além da divulgação do projeto, a empresa apresentou algumas novidades, como a possibilidade de permitir ao usuário ajudar a decidir os próximos lugares que devem ser adicionados ao produto no país.
Além disso, o serviço já começa a registrar os primeiros processos contra a divulgação de imagens.
Um exemplo, é do engenheiro mecânico, residente em Belo Horizonte, Hevaldo Dias Duarte, que abriu um processo na 35ª Vara Cível de Belo Horizonte contra o Google Brasil, no último dia 13 de outubro de 2010, solicitando que a empresa retire imediatamente uma imagem do ar, onde ele aparece vomitando, que gerou uma situação constrangedora.
No Brasil é possível indicar erros nas imagens do serviço, no rodapé existe um botão “report a problem”, onde o usuário pode denunciar uma foto que o incomoda, ou pedir correção de um problema.
Empreendimentos
Um serviço de mapas tão completo também traz muitas oportunidades de investimentos no meio corporativo. Aproveitando a opção de visualizar as imagens em 3D, a Gafisa, uma das maiores construtoras e incorporadoras do Brasil, incluiu a solução do Google em seu site, tornando-se pioneira dentre as empresas do ramo imobiliário a utilizar a tecnologia.
A jogada de marketing da empresa foi alta, através do site da empresa, os internautas podiam ganhar um óculos 3D. O interessado preenchia um cadastro, cujas as unidades disponíveis foram limitada,e posteriormente a Gafisa mandava para endereço indicado.
A experiência de compra já começa na internet, onde o consumidor pode conhecer todo o entorno do empreendimento que lhe interessa sem precisar sair de casa. A busca é simples, basta acessar a ferramenta e localizar a região que o consumidor desejar conhecer. Feito isso, poderá navegar por toda a região e conhecer cada rua do bairro como se estivesse no local. Veja mais detalhes: mapas.gafisa.com.br
Quintella fala das áreas em potencial que o Google Street View poderá atender, em especial a área de turismo. “Acreditamos que a área de turismo tem um enorme potencial e, sem dúvida, será muito beneficiada. Podemos citar como exemplo os hotéis; pense em um turista que queira se hospedar para passar o Carnaval no Rio de Janeiro, ou seja, uma pessoa que não tem familiaridade pelos bairros e ruas da cidade agora terá chance de explorar a fachada do hotel, ruas próximas, estabelecimentos, etc.”.
E o Google não para por aí. Em novembro a empresa lançou a versão 6 do Google Earth. Os dois principais destaques desta atualização são as árvores em 3D e a integração ao Street View.
Com a atualização atual, o programa permitirá que o usuário transfira da visão panorâmica diretamente para o nível das ruas em apenas um clique.
Outra novidade do Google Earth 6 são as árvores em 3D, colocadas no ambiente do programa. São mais de 80 milhões de árvores implementadas, de dezenas de tipos diferentes.
A nova versão conta também com integração melhor para visualização de imagens históricas no Google Earth, função implementada na última atualização, que permite ver cenários como Londres em 1945 ou Varsóvia em 1935.
Félix Ximenes, diretor de comunicação do Google no Brasil.
InfoGPS: Qual será a importância desse serviço para o Brasil?
Félix: O Google Street View é uma ferramenta que complementa o serviço de mapas, Google Maps, e que enriquece com imagens a visualização do usuário. Este pode ver os elementos da cidade, no nível das ruas, como por exemplo as fachadas das edificações e terrenos.
InfoGPS: Por que houve essa demora para que o serviço pudesse ser habilitado no Brasil, em relação a outros países?
Félix: Isso é um processo natural. Tivemos muito cuidado com as imagens, pois no Brasil as ruas são muito acidentadas, o que é uma diferença dos outros países. As vezes tirávamos as fotos e elas não ficavam boas, tínhamos que fazer um reforço, regulávamos os carros, depois trazíamos as imagens para o laboratório. Isso gerou um pouco de atraso.
InfoGPS: Como a Google acredita que seja a recepção do público brasileiro quanto ao serviço?
Félix: O brasileiro gosta de reconhecer a casa onde mora e o local onde trabalha. Através dessa ferramenta ele pode ter informações que antes não tinha, quando viajava,por exemplo. Escolher a minha cidade, localidade, destino, através do Google Maps, agora é mais enriquecedor com o Google Street View.
InfoGPS: O Google Street View pode ser usado em que setores e de que maneira?
Félix: O Google Street View pode ser usado em vários setores. Por exemplo, uma consultoria está usando a ferramenta, aqui no Brasil, para localizar seus escritórios. Ainda, o Corpo de Bombeiros já se manifestou sobre o uso da ferramenta para treinamentos, para indicar as rotas de fugas em casos de regaste. A Polícia Militar também está usando o recurso para áreas de risco. Se usarmos toda a nossa imaginação para utilizar essa ferramenta, não vamos chegar nem aos pés do que ela pode fazer.
InfoGPS: Quais serão as próximas cidades contempladas e quanto tempo isso será feito?
Félix: A ideia é chegar aos grandes centros, não só São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, mas também em todas as cidades do Brasil. Começamos pelas pelas principais capitais, mas pretendemos expandir para todas as vias públicas do país. O Google não tem projetos que começam e acabam. Entre um ano e meio e dois anos devemos concluir esse processo aqui no Brasil.